segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Bonjour, Paris!



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Paris, 2 horas da manhã. É madrugada na Cidade Luz. Uma olhadela rápida no aplicativo do tempo e vejo a marca de 5 graus centígrados, céu predominantemente nublado, o que indica que haverá vento frio e chuva leve nos próximos três dias, o suficiente para congelar mãos e orelhas. Estou vestindo meu pijama de lã grosso e mangas compridas. O quarto de hotel (que chamo de “meu”) continua a mesma bagunça de malas, com sua decoração neoclássica francesa, lençóis brancos e roxos, frigobar azulado, sacada com flores róseas e o aquecedor ligado. Deitada na cama, escrevo no computador, bebo um Bordeaux de 4 euros e como Bretzels alemães.

Belém, 22 horas. É noite na Cidade das Mangueiras. Uma olhadela rápida no aplicativo do tempo e vejo a marca de 26 graus centígrados, céu parcialmente nublado, o que indica que haverá calor e chuvas efêmeras pelos próximos três dias, o suficiente para tomar banho de 6 em 6 horas. Estou vestindo meu pijama de alcinhas. O quarto que chamo de “meu” continua a mesma bagunça de sempre, com seu clima aconchegante de lar, edredons de flores, pelúcias infantis retardatárias, fotos antigas e o ar condicionado ligado. Deitada na cama, escrevo no computador, bebo um vinho meia-boca de 25 reais e como amendoim japonês na tentativa de um revival.

Não dá certo. É rotina outra vez. Novembro dos dias apressados, você passou rápido demais.


Como se fosse ontem, ainda lembro da euforia causada pela notícia de que faria essa viagem dos sonhos dali há um mês. Da arrumação das malas, amontoando roupas de frio, ao assento quádruplo no vôo internacional da TAM, com direito a manta, almofada, kit de higienização bucal e televisão em frente a cadeira (ah, gente, já sofri muito em vôos domésticos), uma ‘eu’ ainda em transe assimilava a idéia. Não bastou colocar Amélie Polain na telinha, nem ler os 3 guias que me foram indicados, durante as 11 horas de vôo: foi preciso sentir o ventinho gelado no rosto e ver os elegantes transeuntes empacotados para acreditar que estava mesmo em ambiente europeu.


A caminho do hotel, enquanto papai já estava familiarizado com o simpático taxista franco-marroquino que dirigia, exercendo seu francês de 26 anos atrás, eu ia muda, observando a paisagem. Deduzi que, num primeiro momento, ficaria travada. Ou, no mínimo, tentaria uma linguagem de sinais acompanhada do meu inglês enferrujado. Utilizando o infrantuguês (inglês + francês + português), entendi que o estádio que passava na janela, Saint-Denis, foi onde Zidane ganhou do Brasil; que Paris inteira tem cerca de 20 milhões de habitantes* e que o salário mínimo francês é de 1500 euros (!!). Reflexões sobre largar tudo e virar babá na França me ocuparam por alguns segundos até perceber que estávamos à margem do Rio Sena e que, ao longe, enfim, estava ela.


Ela, somente ela, cartão postal dos românticos, destino certo dos viajantes, símbolo de história, ícone de sonhos: La Tour Eiffel. Dentre os tantos clichês que esse momento proporciona, o meu veio em forma de curiosidade e encantamento, a necessidade de tudo registrar, de guardar a sensação real de estar em outro país, com outra cultura, outra língua e outras idéias. Acredito que cada lugar que chegamos possui um clima diferente. Paris, pra mim, tem gosto, cor e cheiro. Gosto de Camembert, de croissant sem recheio, de café expresso, de vinho, de chocolate (não, eu não gosto de macarrons). Tem a cor cinza das cidades friorentas e preta das botas das moças, apesar dos dias azuis que presenciamos. E cheiro de Savon de Marseille, o sabonete líquido da Pharmacie da esquina, da fumaça dos cigarros, da fornada de pain au chocolat da boulangerie vizinha.


Viajando nos meus pensamentos neste primeiro dia, em flashes armazenados dos acontecimentos, após uma rápida explorada no que seria meu bairro pelos próximos 15 dias, sentada na mesinha redonda de um simpático bistrô na Boulevard de Grenelle, voltada para a rua como todos e grudada no desconhecido ao lado, brindei com meu velho uma boa taça de Pinot Noir. Era noite de lua crescente, aquela que vi estampada em fotos da minha Belém, e imaginava quantas pessoas olhavam para o mesmo céu. Eu ali, em outro continente, observando as infinitas possibilidades, os desafios de ser estrangeira, a liberdade do anonimato completo, a sensação inexplicável de renovação do ser. Pois, haviam horas que me traziam grandes comoções, grandes dádivas, sublimes euforias, e que me transportavam a mim, extraviada, de volta ao vivo coração do mundo.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Os informais



Ai, esse universo do comércio informal. Na esquina, um bombonzeiro, um sapateiro, um vendedor de castanhas e uma banca de revistas. Entre um quiosque e outro, quatro homens jogam dominó em uma mesa improvisada. Eu queria apenas consertar um sapato e uma bolsa, mas hesitei. Onde estaria o sapateiro? Logo, três homens da mesa me notam, menos um: o dito-cujo. Fumando um cigarro e me olhando de canto, ele se vira e analisa o sapato. O jogo parou. Espero enquanto ele corta a sola, dando um trago entre a troca de um instrumental e outro, e me lembro que só tenho uma nota de 50 reais na bolsa. Me dirijo à banca, e mais um desfalque acontece na roda dos rapazes. O vendedor de revistas logo ocupa o outro lado do balcão. Ô moça, tu só queres trocar o dinheiro é? Não tenho trocado não, mas pergunta ali "pro da castanha", acho que ele troca. O da castanha já havia levantado para vender rosquinhas para uma senhora e trocou, a contragosto, a minha nota. O sapato ficou pronto. A bolsa, moça, eu não faço aqui. Mas e o cara do relógio, pergunto eu, será que ele não solda essa alça pra mim? Não, ele não faz esse tipo de serviço. Faz o seguinte, atravessa a rua, tá vendo aquele cara ali na loja dos carros? (Olho para a outra esquina e vejo um mecânico magrelinho embaixo de um carro). Vai lá, acho que ele faz pra ti. Opa, o sinal ficou verde. Corro e em segundos já estou conversando com o magrelinho. Nossa solda é só pra carros, moça, mas acho que eu posso fazer uma maracutaia aí pá ajeitá pá tu. Furo com uma furadeira, coloco um breguenight de plástico que uso em carro, vai ficar filé. Pô, beleza, então. Cobra quanto? Não moça, que isso (e agora olhando para todos os lados), não posso cobrar por esse tipo de serviço, não. É que eu num faço isso aqui na loja, entende? (tenso). Tudo bem moço, quer dizer, como é seu nome mesmo? Miguel. Ah sim, então Miguel, eu vou deixar a bolsa aqui e amanhã tu me entregas na hora do almoço. Pode ser? Te dou 10 reais pela ajuda. Não precisa não, moça. Deixa aí que eu conserto na amizade. Deixo a bolsa, atravesso a rua novamente, onde o jogo de dominó já havia recomeçado. Agradeço a todos pela a ajuda (em outras palavras, desculpa aí por ter colocado todo mundo para trabalhar) e penso seriamente em repor meu estoque de Trident's melancia, mas acho que desfalcar também o bombonzeiro do jogo seria abusar da gentileza. Volto no dia seguinte: e não é que o mecânico consertou a bolsa? Pago os 10 reais como se estivesse passando bagulho por debaixo dos panos. O mecânico finge não querer por uma fração de segundos, mas aceita. Volto pra casa, enfim, de bolsa e sapatos novos.


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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Eu e meus livros - Parte 2

Então, continuando a saga dos livros iniciada no post anterior, os outros dois livros que li foram:

3) Sexo – Flávio Gikovate, 2010 (*****)

Sou suspeita pra falar deste livro que adorei. Me encanta o tema sobre relacionamentos. Quem escreve é Flávio Gikovate, um médico psiquiatra que, baseando-se em seus atendimentos no consultório e conhecimentos – mais observatórios do que técnicos – conseguiu colocar em palavras o confuso contexto sexual vivenciado pelas pessoas nos dias de hoje. A revolução sexual alcançada após a criação da pílula anticoncepcional permitiu que indivíduos considerados inferiores, como as mulheres e os homossexuais, fossem libertados da prisão psicológica sustentada por uma sociedade repressora, onde se padronizam comportamentos e se rotulam preferências. As pessoas, ditas “comuns” (ninguém é tão normal de perto), também se beneficiaram dessa tal liberdade: hoje é possível “ficar” com várias pessoas ao mesmo tempo, escolher com quem estabelecer laços, transar por diversão, dentre outras inúmeras maravilhas da modernidade. Mas, pare um pouquinho. Será que essa diversidade de relacionamentos tem deixado as pessoas mais felizes e realizadas? Para Gikovate, a resposta é não.

Analisando profundamente os diferentes fenômenos ligados à sexualidade humana, como a agressividade (sexo, por exemplo, é considerado um ato agressivo, lembrando-nos da nossa condição de animais), a vaidade e os jogos de poder envolvidos na prática da sedução, o autor escancara diversos mitos e meias-verdades, revelando, muitas vezes, de forma sincera, o que acontece nos relacionamentos atuais. Fala, por exemplo, que os mais mentirosos, egoístas e capazes de envolver o outro sem qualquer culpa são os que mais obtêm sucesso na conquista (aposto que alguém aí se identificou com essa teoria). Já aqueles mais generosos, preocupados em não ferir os parceiros, sentem-se inferiores por não ter coragem de agir de forma inescrupulosa. Invertem-se totalmente os valores! Como lidar com isso? Relativizando a importância do desejo e buscando parceiros com que tenhamos mais afinidades de sentimentos e idéias.

Também discute a idéia de que sexo e amor são dois impulsos autônomos e independentes (em outras palavras, se seu(sua) namorado(a) traiu você, não significa que ele(a) não gosta de você); e que desejo e excitação são sentimentos bem diferentes (o primeiro é elitista, baseados em elementos de uma sociedade de consumo; a segunda constitui um prazer democrático, alcançado por todos). Assim, Gikovate propõe que reconsideremos essa louvação atual do desejo, já que ele está a serviço da valorização do sexo casual (não acredito em mulheres que dizem gostar de sexo sem envolvimento emocional, nosso estímulo, infelizmente, vai muito além do visual), da preservação do egoísmo e da imaturidade emocional – tudo aquilo que as pessoas vêm tentando se livrar desde os tempos mais remotos. Este livro é uma conversa, dividido em capítulos por assunto, mas sempre em tom casual de como se estivéssemos frente a frente com o autor. Um livro que abre a cabeça para a aceitação de um novo ponto de vista, permitindo com que analisemos as nossas relações e o modo como lidamos com as pessoas. Muito bom! Resta a minha dúvida: Seriam esses aspectos biológicos ou circunstanciais? Bom, no final das contas, só queremos ser felizes mesmo. Cada um a seu modo, é claro.


4) O Alquimista – Paulo Coelho, 1988 (***)

Este livro fazia parte da montanha de livros que deixei para depois, como tantos outros títulos do Paulo Coelho que tenho em casa e ainda não li. Eu lembrava vagamente de dois livros dele, O demônio e a Srta. Prym e Veronika decide morrer, que li há muitos anos e os quais eu gostei, mas que não tive grandes reações ao terminá-los (tem livro que ficamos tristes porque acabam, né?). O Alquimista é um livro curioso, porque fala dos mistérios envolvendo a Alquimia, esse mundo tão obscuro e, portanto, muito interessante de se descobrir. A história é contada tendo como personagem principal um jovem pastor de ovelhas chamado Santiago que, após um sonho repetido, no qual havia um tesouro escondido nas Pirâmides do Egito, resolve largar tudo para seguir este caminho. Durante sua longa jornada, Santiago aprende com os detalhes vividos a cada dia, passando pelas agruras do deserto, vivendo num oásis e entrando em contato com um tipo de “linguagem universal” percebida por todos os seres vivos, chamada a “Alma do Mundo” (Talvez seja aquilo que consideramos ‘intuição’, que nos faz ponderar que tipo de atitudes tomar diante de situações após analisarmos o ambiente e as reações das pessoas, ou mesmo, a relação que temos com um cachorro – que não fala, mas que conseguimos conviver como se fosse uma criança, sabendo suas necessidades e até mesmo seu humor).

Também descobre a sua “Lenda Pessoal”, aquilo que cada um nasceu para fazer e viver, mostrando o quanto é possível seguir (literalmente) um sonho e ter sucesso com isso, e que ninguém consegue ser de todo feliz, enquanto esse objetivo não estiver cumprido. Outros conceitos, como os sinais de Deus e a Grande Obra (conhecida pela lenda dos homens que transformavam metal em ouro), também são abordadas de forma bem fácil de entender. Com diversas pequenas lições entrelaçadas pela vida dos personagens, O Alquimista é um livro pra se ler embalando na rede. Não só por ser leve, de linguagem simples e direta, mas também pelos ensinamentos que nos fazem prestar atenção ao que se passa ao nosso redor, muito além do que vemos.

Bom, esses foram os que terminei. Ainda estou muito apaixonada pelo meu – acredite – Budismo para Leigos (ando numa busca espiritual constante, é muita religião pra restringir o que penso em uma só), mas também comecei Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Novas resenhas estarão por aqui, em breve.


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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Eu e meus livros

“E agora que estou livre de todas as obrigações oficiais, sinto-me atraído pela idéia de usar meu tempo e humor para, num dia desses, escrever um livro – ou antes, um livrinho, uma coisinha para os amigos e aqueles que partilham do meu ponto de vista. O assunto não terá a menor importância. Será apenas um pretexto para que eu me isole a fim de gozar a felicidade de ter tempo de lazer. O importante mesmo será o tom, que deverá estar entre o solene e o íntimo, entre o sério e o brinquedo, um tom que não seja de instrução, mas de conversa amigável sobre as várias coisas que aprendi...”

Quem escreveu essas palavras foi Magister Ludi, personagem central do livro de Hermann Hesse O jogo das contas de vidro. Este trecho me fez lembrar que, há muito, não escrevo um texto. Não por falta de idéias, muito pelo contrário. Às vezes, as idéias pululam na minha mente, inquietas, mas juntá-las ainda não havia se tornado objetivo principal em nenhum dos dias que se passaram. Procrastinação crônica, a mania de deixar as coisas para depois. Na verdade, havia um misto de falta de tempo com a necessidade de me manter mais reservada. Você sabe, nossos escritos não deixam de ser parte do nosso eu (apesar de muitas vezes me inspirar em relatos dos outros na construção de uma história). As pessoas tendem a relacioná-los com nossa vida íntima, o que constitui a parte chata do gostar de escrever. Mas faz parte. Nenhum prazer é de todo positivo. Sempre há um lado duvidoso.

Pois bem, hoje, em virtude de um dedo batido, consegui uma manhã de folga em que me senti livre para fazer o que quiser. Eu havia pensado, numa dessas viagens que tenho feito à São Paulo, que talvez fosse uma boa idéia registrar os livros que leio, já que sou uma leitora um tanto caótica. Começo vários livros ao mesmo tempo. Tem o que gosto de ler de noite, antes de dormir, o que leio durante a viagem, aquele que leio numa tarde de domingo, e por aí vai. Mas é verdade que, quando o livro é muito prazeroso, acaba por monopolizar todo meu tempo livre. Livraria, então, é perdição. Vivo comprando livros que deixo pela metade e se amontoam na cabeceira da cama. Hei de terminá-los, após mais uma promessa de fim de ano de que irei terminá-los.

Até onde lembro, li quatro livros inteiros este ano, os quais irei descrevê-los a seguir, emitindo suas sinopses e opinião pessoal de mera leitora de livros sem status algum. A quantidade de asteriscos indicam, em uma escala de 1 a 5, o quanto gostei de ler estes livros. Espero que gostem. E se vocês leram, ou lerem em seguida, vamos discuti-los!


1) A Pequena Abelha - Chris Cleave, 2010 (***)




Livro do inglês Chris Cleave que me chamou atenção pela falta de sinopse (curiosidade à mil, é claro). Na capa, apenas a figura de uma mulher e inúmeros elogios de jornais reconhecidos internacionalmente (A propósito, quero ressaltar que não tenho preconceito pelos livros populares. Acho que cada escritor é igualmente artista como qualquer outro). O livro é narrado em primeira pessoa pelas duas personagens principais, a jornalista britânica Sara, editora-chefe de uma revista feminina, viúva e mãe de Charlie, um garoto de quatro anos que só se veste de batman; e a adolescente nigeriana refugiada, “Pequena Abelha”, que adota o codinome do inseto que fabrica o mais doce dos alimentos como forma de sobreviver a amargura da existência no limbo da civilização. Sem documentos e recém-saída de um centro de acolhimento para refugiados, a jovem oscila na fronteira entre dois mundos: a África, para onde não pode voltar, e a Europa, que não a quer. A história adquire forma dramática pelo mistério que une a vida das duas personagens durante todo o percurso do livro. Revelado aos poucos por flashbacks,uma fatalidade e uma decisão extrema tomada por uma delas nos faz refletir sobre até onde somos capazes de abrir mão de nosso próprio conforto em prol do outro. Na minha humilde opinião, é um livro fácil de ler, emocionante, que vale a pena ser lido.


2) Precisamos falar sobre Kevin – Lionel Shriver, 2007 (*****)




Sabe quando você termina um livro, fecha e pensa: Li um livro do caralho? Pois é! Isso aconteceu quando fechei Precisamos falar sobre Kevin. Adoro livros verídico-ficcionais, que mostram a verdade com personagens irreais. Ainda lembro-me da época em que o comprei: Wellington Menezes de Oliveira havia recentemente realizado o crime mais brutal já ocorrido numa escola do Brasil, abrindo fogo contra os alunos da 8ª série do Colégio Municipal Tasso da Silveira, no bairro de Realengo, no Rio de Janeiro, em um episódio que resultou na morte de 12 crianças. Todos os noticiários e revistas, chocados com a atrocidade de um crime feito por alguém sem antecedentes criminais, buscavam explicações sobre os porquês deste acontecimento. Estudiosos da mente traçavam o perfil do assassino na tentativa de justificar as mortes dessas crianças inocentes. Esquizofrenia? Bullying? Depressão? Psicopatia? Em vão. O assassino estava morto e só o que restou foram os pais desolados, sem os filhos, e uma sociedade doente, sem explicações. A história de Kevin é parecida.

Kevin Katchadourian é um garoto de 16 anos autor de uma chacina que liquidou sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um bom colégio dos subúrbios de Nova York. A descrição dos acontecimentos, no entanto, não é dada sob a visão do assassino, e sim, da mãe, Eva, através de uma sucessão de cartas escritas a um pai ausente. Nelas, ao procurar os porquês, Eva constrói uma meditação sobre a maldade e discute um tabu: a ambivalência de certas mulheres diante da maternidade e sua influência e responsabilidade na criação de um pequeno monstro. Com uma descrição minuciosa de detalhes, a mãe do assassino relata lembranças de seu relacionamento com Franklin, o pai, um americano padrão (e que pais um dia saberiam que seu filho se tornaria um monstro?). Reexamina todos os seus passos: desde o medo de ter um filho ao parto do bebê indócil que assustava as baby-sitters. Mostra o garoto maquiavélico que dividia para conquistar. Exibe o adolescente que deixava provas de péssima índole e também a felicidade de ter, depois do primogênito, uma filha desejada e amável.

Exilada em memórias ainda mais tenebrosas que textos de matérias e imagens de documentários, Eva Katchadourian dá vida a detalhes sórdidos da trajetória familiar com uma escrita magnética. Sacudindo o leitor entre a culpa e a empatia, retribuição e perdão, este livro discute casamento e carreira; maternidade e família; sinceridade e alienação. Denuncia o que há com culturas e sociedades contemporâneas que produzem assassinos mirins em série, como os EUA. É um thriller psicanalítico (adoro) onde não se pergunta quem matou. Revela quem e o que morreu, enquanto uma mãe moderna tenta encontrar respostas para o tradicional ‘Onde foi que eu errei?”. É quase impossível largar este livro. Sem dúvida, o melhor que li este ano. Atual, crítico, sincero, que nos faz pensar meses e meses depois de deixá-lo.

Obs: Procurando imagens para ilustrar este post, descobri que o livro do Kevin foi adaptado para o cinema, com estréia prevista para Dezembro. Lembrando que, ao menos para mim, raramente filmes adaptados são tão bons quanto os livros...